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A música e o ego
Por Wendell Penedo
12/08/2008
Interessante como a música tem a capacidade de nos representar, não apenas no que diz respeito ao grupo a que pertencemos, mas a forma como pensamos, sentimos...
Observando meus poucos amigos, cheguei à conclusão de que a música representa um longo processo de reclusão, que parte do desejo do bem coletivo para o egocentrismo puro. Evidentemente, isso não é uma regra, e como disse anteriormente, talvez seja a carecterística desses poucos amigos que costumo observar. Como faço parte desse grupo, percebo isso em mim, e posso dizer que começamos inspirados numa vontade enorme de mudança do mundo, geralmente através de processos políticos e filosóficos, para chegar em um ponto de extremo negativismo, apatia e talvez, lamentação, dessa vez inspirados pelas experiências pessoais.
Quando adolescentes, éramos uma fonte inesgotável de sonhos, acreditávamos na mudança, fizemos faculdade de jornalismo enquanto escutávamos Metallica antigo ou Rage Against the Machine. Toda aquela fúria de álbuns como ...And Justice For All, ou talvez Fuck Me Jesus (Marduk) era lenha que alimentava o fogo de nossos desejos e fazia com que soltássemos vapor pelas ventas. Sim, eu acreditava que a política tinha jeito, e acreditava que estampando minha insatisfação no peito era uma forma legítima de luta. Acreditava que o massacre cultural que o cristianismo semeou em cada canto do mundo deveria ser mostrado a todos, e a blasfêmia, fosse em forma pictórica ou em manifestações brutais como a queima de templos, era válida. Pintamos nossas caras, não num movimento estudantil, mas numa guerra em que a arte era a nossa arma, e com ela mudaríamos tudo o que há de podre em nossa sociedade.
O tempo foi passando, as frustrações se acumulando, e as idéias começando a soar utópicas demais para valerem a pena. O Metallica já não era mais um banda de adolescentes conscientes, havia se tornando um “conjunto” de gordos, ricos, que faziam tudo aquilo que há alguns anos pareciam os grandes tópicos da luta que víamos em suas letras. Os Marduks da vida já pareciam menos verdadeiros em seus discursos, e começavam a se desmontar pela força de sua própria contradição.
Eis o panorama daquele momento, estávamos sem lar. Sem sonhos e com um gosto amargo na boca. Era a frustração da vida adulta, ou simplesmente falta de fé nossos próprios propósitos? Ninguém sabe ao certo.
O que sabemos é que agora começamos a nos enxergar de fora pra dentro, e o mundo ficou menos importante que nossos umbigos. Passamos a ouvir Anathema, pois cada decepção que tivemos estava retratada em suas letras melancólicas. Opeth e suas atmosferas oscilantes acabou se tornando muito mais interessante do que ouvir o Cannibal Corpse e suas mutilações sem razão. Abandonamos o documentário, o terror, e até a ficção cientítica para nos deprimirmos diante do drama.
O ego venceu o coletivo. Pelo menos nesse pequeno grupo de amigos que observei. Talvez não tão minúsculo como pareça.
12/08/2008

Interessante como a música tem a capacidade de nos representar, não apenas no que diz respeito ao grupo a que pertencemos, mas a forma como pensamos, sentimos...
Observando meus poucos amigos, cheguei à conclusão de que a música representa um longo processo de reclusão, que parte do desejo do bem coletivo para o egocentrismo puro. Evidentemente, isso não é uma regra, e como disse anteriormente, talvez seja a carecterística desses poucos amigos que costumo observar. Como faço parte desse grupo, percebo isso em mim, e posso dizer que começamos inspirados numa vontade enorme de mudança do mundo, geralmente através de processos políticos e filosóficos, para chegar em um ponto de extremo negativismo, apatia e talvez, lamentação, dessa vez inspirados pelas experiências pessoais.
Quando adolescentes, éramos uma fonte inesgotável de sonhos, acreditávamos na mudança, fizemos faculdade de jornalismo enquanto escutávamos Metallica antigo ou Rage Against the Machine. Toda aquela fúria de álbuns como ...And Justice For All, ou talvez Fuck Me Jesus (Marduk) era lenha que alimentava o fogo de nossos desejos e fazia com que soltássemos vapor pelas ventas. Sim, eu acreditava que a política tinha jeito, e acreditava que estampando minha insatisfação no peito era uma forma legítima de luta. Acreditava que o massacre cultural que o cristianismo semeou em cada canto do mundo deveria ser mostrado a todos, e a blasfêmia, fosse em forma pictórica ou em manifestações brutais como a queima de templos, era válida. Pintamos nossas caras, não num movimento estudantil, mas numa guerra em que a arte era a nossa arma, e com ela mudaríamos tudo o que há de podre em nossa sociedade.
O tempo foi passando, as frustrações se acumulando, e as idéias começando a soar utópicas demais para valerem a pena. O Metallica já não era mais um banda de adolescentes conscientes, havia se tornando um “conjunto” de gordos, ricos, que faziam tudo aquilo que há alguns anos pareciam os grandes tópicos da luta que víamos em suas letras. Os Marduks da vida já pareciam menos verdadeiros em seus discursos, e começavam a se desmontar pela força de sua própria contradição.
Eis o panorama daquele momento, estávamos sem lar. Sem sonhos e com um gosto amargo na boca. Era a frustração da vida adulta, ou simplesmente falta de fé nossos próprios propósitos? Ninguém sabe ao certo.
O que sabemos é que agora começamos a nos enxergar de fora pra dentro, e o mundo ficou menos importante que nossos umbigos. Passamos a ouvir Anathema, pois cada decepção que tivemos estava retratada em suas letras melancólicas. Opeth e suas atmosferas oscilantes acabou se tornando muito mais interessante do que ouvir o Cannibal Corpse e suas mutilações sem razão. Abandonamos o documentário, o terror, e até a ficção cientítica para nos deprimirmos diante do drama.
O ego venceu o coletivo. Pelo menos nesse pequeno grupo de amigos que observei. Talvez não tão minúsculo como pareça.


